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A coleira

Por Wagner Montenegro

Este texto foi escrito originalmente no primeiro semestre de 2015 quando Veruska, Maria e eu nos debruçamos na construção do espetáculo Las Mariposas. O texto estava carregado de intencionalidades. Claro, todo texto é. Mas as emoções que tomavam conta dele foram as mesmas que me amedrontaram e me fizeram desistir da performance “A coleira”. Não era algo que me movia e me fazia expandir. Paralisava-me. Eu queria transformar isso. Agora, neste mês de dezembro de 2017, exatamente às 15:09 do dia 12, retomo a leitura e a escrita do texto, na tentativa de fazê-lo transbordar com aquela nossa experiência. Hoje, ainda lembro muito bem dos dois dias que fizemos o percurso da coleira em Recife: o primeiro, nos arredores do Mercado de São José; o segundo, na praia de Boa Viagem. Ao lembrar disso e de todas as experiências que tivemos com o espetáculo, sou invadido de felicidade e alívio por termos transformado “a coleira” na nossa primeira cena. É a partir desta imagem que reinicio, agora, este relato.

 

24 de fevereiro de 2015.

15:00h.

Segurei forte a minha respiração e caminhei longas duas horas puxando Veruska por uma coleira pelo centro do Recife. Saímos do Parque Treze de Maio, bem no coração da cidade, e fomos até o Mercado de São José, o mais antigo mercado público que temos por aqui.

Nesses pouco mais de dois quilômetros de percurso, ninguém sabia que aquilo era teatro. Ninguém sabia que Veruska e eu estávamos criando um espetáculo. Ninguém sabia que havia outras pessoas junto com a gente. O que sabiam era que um homem estava puxando uma mulher por uma coleira amarrada ao pescoço no meio da rua. Ali, o Teatro era Invisível.

Esta imagem da violência contra a mulher foi inspirada no exercício de Teatro Invisível que Augusto Boal já havia experimentado algumas décadas antes de nós. Pensamos, por certo tempo, durante os encontros em que Veruska, Maria e eu discutíamos e estudávamos sobre a violência contra a mulher, numa forma de levarmos às ruas pequenos experimentos para sentirmos na pele a reação das pessoas quando falássemos sobre o tema.  Redescobrimos o Teatro Invisível de Boal. Tentamos fazer uma livre inspiração a partir da experiência descrita por ele. Pensamos que talvez Veruska pudesse andar pela cidade com um colar elizabetano, daqueles que se colocam em cachorros cirurgiados, mas entendemos que um homem puxando uma mulher por uma coleira no meio da rua é por demais claro, objetivo, violento, extracotidiano, cruel. Boal havia acertado mais uma vez. Esta imagem teria a potência suficiente de causar estranhamento e convocar as pessoas para o diálogo. Eu acreditava que as pessoas se incomodariam com aquilo. Eu acreditava que aquela imagem incitaria a conversa. Eu acreditava que as pessoas não suportariam aquilo. Eu acreditava que aquilo teria um fim.

 

***

Saímos para enfrentar a rua. Falávamos, supúnhamos, da violência contra a mulher. Eu acreditava que estava falando delas. Sobre elas. Para elas. Eu pensava que estava falando do outro, ou melhor, da outra… Descobri algo muito maior do que imaginava. Descobri que eu estava falando sobre mim.

Vivi 26 anos da minha vida até que finalmente eu me vi e me reconheci como um homem. Não que eu me visse como uma mulher, não é isso. Mas naqueles dias, senti no corpo todo o peso de uma sociabilidade masculina, compulsoriamente violenta. E isso não foi uma coisa fácil.

Durante todo o tempo em que eu puxava Veruska pela coleira, eu via medo no olhar dos outros sobre mim. Este medo parecia se fundir com uma certa naturalização daquilo tudo. Eu era um agressor. Eu era um opressor. Eu era um homem e isso era normal. Homem é capaz dessas coisas… Ali, eu era um Rotweiller adestrado.

Quando eu paro pra pensar sobre a nossa experiência há quase três anos, eu verdadeiramente sinto que aquela imagem diz mais sobre mim e sobre todos os homens do que sobre as mulheres. A partir daquela experiência, eu entendi que quando as pessoas e, sobretudo, as mulheres me veem na rua, me veem homem. Eu tenho barba, tenho braços, tenho o rosto, tenho a voz, o corpo de um homem e isso tudo forma a imagem de uma pessoa que pode ser violenta a qualquer momento. Ser homem é ser um violador em potencial. E eu sei que a maioria dos homens não sabe disso. Eu também não sabia. Eu nunca me vi socialmente diferente das mulheres. Talvez porque eu fui criado só por mulheres. Cinco ao todo, entre mãe, tias e avó.

Eu não entendia o que significava ser homem até fazer mariposas e repetia sempre os discursos que ainda hoje eu ouço: “nem todo homem é violento!”… “nem todo homem é machista”… “nem todo homem… nem todo homem…”.

É… eu sei… nem todo homem. Eu me incluo nesse “nem”, eu acho… mas o que está estampado na minha cara é uma barba, um corpo, uma voz, uma roupa, uma forma de ser “homem”… Esse “nem todo homem”, é por demais subjetivo pra gente conseguir trazer pro corpo e friccionar essa imagem de homem = violência. Talvez seja mesmo verdade que todo homem é machista e a gente nem sabe.

Em um de nossos laboratórios, perguntei a Veruska como eu poderia levar para o corpo algo que tirasse a sensação de ser um possível agressor quando as mulheres me vissem na rua. “Usa uma echarpe rosa”, disse ela, e rimos.

 

***

Em Recife, eu uso uma moto como meu principal meio de transporte. A Junção Homem + Moto é uma combinação perfeita pra pensar as relações de gênero pautadas sobre os estereótipos. Inúmeras vezes, quando eu estava chegando em casa e encostava a moto para entrar na garagem, as mulheres que ocasionalmente estavam passando pela minha calçada, apressavam os passos, apertavam a bolsa e olhavam pra mim com um certo ar de preocupação. Eu pensava que tudo isso era só porque em Recife, o número de assaltos com moto é impressionante. Mas também pensei: são os homens ou as mulheres que usam as motos para assaltar? Outro dia eu estava andando na rua e havia uma mulher na minha frente. Quando ela percebeu a minha presença, segurou a bolsa. Por que será que as mulheres se sentem inseguras quando há um homem desconhecido por perto? Por que será que homem parece ser ameaçador para as mulheres?

 

***

Depois deste trabalho, parei pra pensar se alguma vez na vida eu havia sido machista e descobri dentro de mim um lugar sombrio. Lembrei da minha quinta série na Escola Menino Jesus. Eu estudava na 5º D, meu primo, 6ª C. Apesar de termos exatamente a mesma idade, com 24 dias de diferença, ele era um ano acima de mim na escola. Eu não entendia porque minha mãe havia optado pela minha reprovação no Jardim II… Tia Tereza, a minha professora na época, disse que eu era tímido demais e que tinha que aprender a brincar com os outros meninos. Ela convenceu a minha mãe de que eu tinha que repetir essa série. Eu queria estudar na mesma sala do meu primo.

Na 5ª série, eu tinha os amigos da minha sala e tinha muitos amigos da sala do meu primo. E foi com eles que eu ensaiava o que era ser homem. Foi nessa época, aos 11 anos de idade, que aprendi a assediar as meninas. E eu nem tinha desejos sexuais por elas. Eu só queria ser aceito pelo grupo dos meninos da 6ª C.

Vez ou outra, durante a hora do recreio, eu e os meninos da 6ª C ocupávamos um corredor inteiro, perto de saída para a cantina da escola. Esse corredor era passagem obrigatória. Eu, encostado numa parede, junto com mais outros meninos ao meu lado. Uma perna sempre apoiada na parede e uma mão sempre mexendo no pau. Era assim que eu forjava a minha masculinidade. Na minha frente, os outros meninos assumiam a mesmíssima postura e quando alguma menina passava, a gente alisava o cabelo, o braço, puxava pra perto, na tentativa de roubar um beijo. Era só isso pra mim: brincar de dar em cima. Mas na verdade, tudo isso hoje soa como um exercício compulsório que engendra esse padrão de masculinidade destrutiva.

Durante todo o ano naquela escola eu não beijei nenhuma menina e era motivo de chacota dos outros meninos por isso. Eu nem tinha vontade de beijar as meninas. Talvez mesmo eu quisesse beijar o Tiago, meu melhor amigo daquela época que nem participava daqueles rituais com a gente.

 

Mercado de São José/2015 | Foto: Rafael Acioly

 

***

A existência humana me parece mesmo sem sentido. Me pego, inúmeras vezes, pensando em como narrar essa experiência. Existe uma parte dela que não me parece completamente narrável. Existe algo dentro de mim que ainda vibra e se contorce quando eu lembro dos dois dias em que fizemos “a coleira” em Recife. Como, então, narrar o inenarrável?

Eu penso que vivemos, eu, você, todas as pessoas desse mundo, construindo e reconstruindo uma delicada zona eclipsada capaz de transformar os oprimidos em verdadeiros carrascos e os opressores em vítimas do acaso. É fácil demais justificar os motivos que fizeram o opressor virar opressor. Ninguém nasce opressor. Só nós, os homens.

 

***

“Xola”, “rapariga”, “chupona” e “arrombada” foram os adjetivos mais leves que Veruska ganhou naquele dia. A maioria deles, jogado por outras mulheres, talvez oprimidas na vida privada por opressores homens, “vítimas da conjuntura”, desse padrão pernicioso da masculinidade.

Eu havia imaginado que as pessoas iriam nos parar e nos questionar sobre aquilo. Surpreendi-me quando vi que eu, como homem, quase passo despercebido como o algoz. É normal um homem agir de maneira violenta. Veruska, ao contrário, era apontada.

Algumas pessoas diziam que ela deveria ter merecido aquela coleira e gritavam que era muito bem feito pra ela: “toma, cachorra, botou gaia!”. Muita gente aproveitou para “chutar cachorro morto” e se divertia com a vida nua, arrastada e marcada em praça pública pela violência. Era como almoçar assistindo aos programas policiais ao meio dia, misturando o macarrão à bolonhesa ao sangue espremido na TV. Tudo aquilo parecia normal, eu imagino.

Atravessamos o trabalho de policiais que continuaram a conversa entre si enquanto eu continuava o meu trajeto puxando Veruska pela coleira. Paramos numa barraquinha e comprei duas águas. Eu tremia. Tive medo porque havia um grupo de homens sentados na calçada. Eles também eram Rotweillers adestrados. Tive medo também de não conseguir segurar aquela personagem que era tão distante de mim. Comprei as águas e seguimos por ruas, lojas e becos. Encontramos muitos olhares de estranhamento. Mas, sempre que estávamos perto, as pessoas se esforçavam para fingir que nada de errado estava acontecendo ali. Quando nos distanciávamos, os gritos e alvoroços começavam. Meu corpo esfriava. Minhas mãos tremiam. Tive medo. Muito. Uns homens nos seguiam com olhares ameaçadores, outros ensaiavam o grande trunfo heroico: “vou amarrar a mãe dele pelo pescoço e puxar pelo meio da rua pra ele sentir o que é bom”.

Uma mulher até ensaiou uma solução para aquela cena: gritou alto pela polícia e reuniu outras pessoas, mas quando eu cheguei perto, o grupo calou-se. Segui com Veruska até que um grupo de pessoas começou a correr atrás da gente. Nesse momento, temi ser linchado. Corremos.

 

***

Repetimos esse mesmo Teatro Invisível no dia 03 de maio de 2015, exatos setenta e um dias após a nossa primeira experiência. Dessa vez, escolhemos a orla de Boa Viagem para testemunhar a nossa performance. Naquela tarde de domingo, com final de campeonato de futebol num jogo do Santa Cruz, as famílias recifenses agradeciam aos céus o lazer merecido com o sol ainda forte às três horas da tarde.

No calçadão, o olhar de uma criança de uns dois anos de idade me pareceu mais preocupado e impactado com a situação do que os de muitos adultos. Enquanto ela era arrastada pelo braço pelo pai, olhava para mim estranhando tudo aquilo. E mais surpreendente ainda foi quando um grupo de crianças nos cercou e me perguntou porque eu tinha posto uma coleira nela. “Solta ela, moço. Numa mulher não se bate nem com uma flor!”, disse um dos meninos, na tentativa de romper com aquela opressão, sem mais violências, mas com o diálogo. Aí, simplesmente pensei: nem toda a humanidade está condenada.

 

***

Passei alguns meses sem pisar nos arredores do Mercado de São José. Tive medo de que as pessoas tivessem marcado o meu rosto e que, vulnerável, eu fosse vítima de heróis-homens-rotweillers. Mas acho mesmo que o que me paralisou nesta experiência tem muito mais a ver com a forma como eu me descobri homem. De repente vi que ser homem é ser uma bomba-relógio. Ser homem é carregar a potência de destruição e que essa destruição não fere só o outro. Essa destruição consome a mim. Me mata! Quando eu vi que as crianças ainda não carregam toda essa potência destrutiva, me questionei: Por que a gente tem que virar adulto?

 

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