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Círculo de Diálogos: O Teatro do Real e seus possíveis desdobramentos terapêuticos

Por Wagner Montengro

 

Quando recebemos o convite para estarmos aqui nessa mesa e Veruska e eu acordamos que eu seria o representante do NEXTO, eu pensei: “meu deus, o que danado eu vou falar sobre os possíveis desdobramentos terapêuticos do Teatro do Oprimido”, ou melhor, do meu trabalho, do nosso trabalho, com o Teatro do Oprimido?

Pensar sobre os possíveis desdobramentos terapêuticos do nosso trabalho no NEXTO me trouxe à memória – e a ideia de MEMÓRIA é algo fundamental no trabalho com o Teatro do Oprimido. É a partir da memória que a gente constrói as nossas narrativas. É a partir da memória que a gente age em sociedade, cria conexões, realidades, etc. É a partir da memória que nós nos fazemos seres sociais. É essa capacidade humana que fundamenta a nossa existência. – Pensar sobre o tema de hoje me lembrou, primeiro, as técnicas introspectivas do Arco-íris do desejo.

O Arco-íris do desejo é uma das técnicas do Teatro do Oprimido e busca investigar profundamente as opressões. Essa técnica investiga tão profundamente, decompondo as opressões, que nos permite analisar até mesmo aquelas opressões mais internas que não necessariamente tem alguém lá, objetivamente, como o opressor. Ela também nos permite analisar e reconfigurar, talvez, as motivações das personagens envolvidas na trama. De modo a nos fazer pensar sobre elas… nos faz supor todas as forças que estão orquestradas para fundamentar a opressão ali trabalhada. Nos faz entender o que é que faz do opressor, “opressor”. Apesar de ter como subtítulo: Método Boal de Teatro e Terapia, não se trata de terapia. É teatro.

Eu sou ator. Veruska é atriz. Não temos nenhuma habilidade técnica para conduzirmos processos de terapia. Nossa habilidade e sensibilidade se restringem a conduzir investigação das nossas potências, dos nossos sentimentos, das nossas capacidades de compreensão do mundo para o trabalho com o TEATRO. E essas potências precisam ser conhecidas e reconhecidas para que possamos ampliá-las e, assim, a gente também amplifica as nossas possibilidades de expressão (de sentimentos, de visão de mundo, realidades,etc.) a partir daí a gente reconstrói as nossas narrativas. Ou desejamos reconstruí-las, ou construir novas narrativas diferentes daquelas que já não nos servem mais. A partir da investigação sobre as nossas próprias histórias de vida… das nossas opressões, a gente mira para a transformação da realidade. Realidade de quem? De cada um e cada uma dos grupos de oprimidos e oprimidas que trabalhamos ao longo desses anos.

Trabalhamos exclusivamente com as histórias pessoais de opressão. E, obviamente, nesse trabalho, a gente mexe, desmonta, se conecta, recombina as histórias que são muito difíceis, traumáticas, dolorosas para muita gente. Mas, repito, não sabemos fazer terapia. Engraçado… mas é terapêutico… que é exatamente o que Boal diz sobre o Teatro do Oprimido: é terapêutico, mas não é terapia. É terapêutico como qualquer outro bom teatro. Como qualquer outra boa expressão artística. Mas aí eu penso: O que é ser “terapêutico”? Quem é que diz que algo é terapêutico?

Eu recuso pra mim a ideia de terapia porque entendo que terapia é algo institucionalizado… precisa-se ter uma habilidade profissional para conduzi-la. Precisa-se seguir normas técnicas, seguir protocolos que eu não sei. Veruska também não sabe. Deixamos isso aos terapeutas porque o que me interessa mesmo é fazer teatro.

Mas quando eu penso no que quer dizer “terapêutico”, eu penso que qualquer dispositivo que seja capaz de aliviar uma dor, um sofrimento, ou promover ressignificação de uma opressão, ou fazer a gente reconstruir as nossas narrativas, construir novas realidades… o que quer que nos faça mover e transforme uma potência destrutiva em algo deseje, que vislumbre, que queira a transformação. Isso é terapêutico.

E quem é que dá esse selo “terapêutico” a alguma coisa? O próprio sujeito que passa por essa experiência. O que é terapêutico pra mim, pode não ser pro outro. O Teatro do Oprimido, o Arco-íris do desejo pode ser terapêutico pra mim, mas não pra vocês, por exemplo. Se o que me desloca para essa transformação, é o teatro, a poesia, um filme, uma conversa, ou uma terapia, não importa. Se me desloca e me transforma… transforma algo que me oprimia, é terapêutico.

Pensando em tudo isso, eu me lembrei muito do projeto que Veruska e eu temos, no NEXTO, desde 2014. O projeto se chama “Descobrindo a Estética do Oprimido”. Ele tem esse nome porque além de descobrirem a técnica “estética do oprimido”, quem participa é convidado a descobrir a sua própria “estética”. É exatamente isso que propõe a Estética do Oprimido. Cada um e cada uma de nós podemos nos libertar das formas de expressão que nos foram impostas e potencializarmos as nossas próprias capacidades criativas, estéticas.

Esse projeto, no ano de 2017, percorreu 09 cidades de Pernambuco, além de Brasília e São Paulo. Em 2014, na oficina que o inaugurou, fomos trabalhar em Nazaré da Mata, que fica na Zona da Mata Norte pernambucana. Estávamos numa ONG feminista que trabalha exclusivamente com mulheres. A oficina era aberta para o público externo. Homens e mulheres poderiam se inscrever, mas a gente teve uma turma exclusiva de mulheres.

Lá, conhecemos Maria. Maria era, na época, uma mulher com 31 anos, mas fisicamente parecia ter muito mais. Todo mundo na sala a chamava de “senhora”. Ela tinha um rosto muito envelhecido. Não que isso seja importante. Eu não estou falando do aspecto grosseiro, superficial. Não me importa um rosto velho. Eu estou falando no aspecto sutil. Um envelhecimento precoce em alguém com 31 anos de idade. Isso me chamou atenção… porque o nosso corpo externaliza o nosso interior. A gente corporifica as nossas opressões. Ou somatiza, pra usar um termo que eu tanto escuto por ai.

Maria, foi a nossa primeira aluna a chegar na sala. Ela chegou bem animada, dizendo que o sonho dela sempre era fazer teatro. Ela disse que no dia anterior – era um domingo – ela tinha passado por uns problemas… “Só deus sabe, como é que eu to aqui”, disse ela. Mas que ela não perderia o nosso curso por nada. E que não faltaria nenhum dia porque com aquele curso, ela ia pro décimo certificado.

No segundo dia de oficina, Maria contou pra gente que estava se separando do marido. Ela estava casada há 18 anos. E ela tinha 31. Deixou de estudar e passou a ter uma vida dedicada ao marido e aos seus dois filhos.

No terceiro dia de oficina, a gente iria compartilhar as histórias pessoais de vida. E a gente mal conseguia conter as lágrimas ouvindo a história dela, que foi escolhida para darmos continuidade ao trabalho.

Ela contou como ela apanhava do marido. Contou como ele tentou estuprá-la com uma marreta. Ela disse que naquele momento entendeu que não conseguia mais suportar tamanha violência. Muito provavelmente, aquela mulher teve uma vida inteira violentada e 18 anos de casamento.

A história de vida dela foi a estrada de tijolinhos amarelos pra gente pensar sobre as nossas próprias vidas. Pra gente pensar onde é que surge essa opressão. Pra pensarmos onde é que ela se fundamenta, se estrutura… Qual é a nossa relação com esse tema?… Não se trata mais somente da história de Maria, agora é a história de todo mundo.

Não é só resolver a história particular de Maria. É importante resolvê-la, mas é preciso ir mais fundo. É preciso ir à raiz do problema. A gente precisa investigar o que é que faz – objetivamente – aquele homem ser opressor. E não é algo que seja exclusivo dele… é algo que está pairando por aí. A gente precisa investigar como a oprimida pode criar pontes para o diálogo, para que a opressão acabe. E não se trata de Maria… ou do seu marido. Eles são as peças que podemos organizar para discutirmos questões mais profundas: machismo, dominação, patriarcado, violência, etc. Eles são as peças-chave pra gente começar a entender onde é que a gente se encontra no meio disso tudo. Onde é que a nossa história se cruza com a dela. Onde é que a gente reproduz a violência, o machismo, a dominação… É preciso que a história de Maria caiba em muitas outras. E foi nesse caminho que experimentamos as técnicas do Teatro do Oprimido.

Fizemos o Arco-íris do desejo com a história dela. No primeiro improviso, ela recontava a opressão. Nesse exato instante ela tinha a oportunidade de recriar a narrativa. Depois dessa etapa, ela observava os improvisos que as outras mulheres faziam na cena. E eu observava o comportamento dela. Atenta. Calada. Inquieta. Ela acompanhava tudo, com os olhos em brasa. Ora ria, ora afastava o corpo, ora se aproximava… Ela tava ali. Recombinando a sua história. E todos nós opinávamos com as nossas ideias postas em cena. O debate acontecia não pelo julgamento das atitudes das personagens… não na ideia do que ela tinha que ter feito. Mas acontecia no intuito de investigar as motivações das personagens, entender as possibilidades de ação das personagens, os seus psicologismos… para nos abastecermos para o fazer teatral. Todas as mulheres naquela sala tiveram a oportunidade de defender as duas personagens postas em relação: o opressor e a oprimida e, assim, emergiram falas e comportamentos que nos guiaram para a construção teatral.

Tudo aquilo serviria para nós como material bruto, para continuarmos o trabalho. Isso é só um exercício, mas é terapêutico. Possibilita aos sujeitos se verem de longe… permite um deslocamento do cotidiano… que é um passo importantíssimo para o desenvolvimento da razão, para a ampliação da nossa capacidade crítica. É o que permite fazermos reflexões mais profundas sobre a nossa vida e sobre a sociedade.

E assim, a gente caminha para compreendermos os fundamentos sociais, morais, culturais das opressões e a gente toma para si a ideia de que também somos seres capazes de alterar a estrutura social. Somos estruturados, claro. Seguimos por normas sociais estabelecidas há milênios. Mas também somos seres estruturantes… a gente também pode mudar a sociedade porque também somos a sociedade.

Fizemos o modelo de cena de Teatro-fórum com a história de Maria. No prólogo, Maria, a personagem oprimida, encontra uma amiga e diz que quer voltar a estudar. Essa amiga é sua aliada e, juntas, conseguem matrícula numa escola para jovens e adultos. Em casa, Maria e suas duas filhas agora se ajudam na escola, mas o marido não fica satisfeito com essa situação. Mulher, para ele, só deve cuidar da casa e dos filhos. Ele é quem tem o dever de prover a família. Pra quê estudar? Dizia ele.

Maria, a nossa atriz, fez o personagem opressor.  Ela tinha vária cartas na manga no momento das intervenções do público. A capacidade mnemônica dela jogava na cena todas as principais questões que pairam a violência doméstica contra a mulher. Ela dizia em cena coisas que não haviam saído nos ensaios. Muito provavelmente coisas que ela já ouvira antes. Ela, enquanto figura que representava o seu ex-marido. Ela, enquanto personagem opressor, diz à oprimida: ”você é feia, não vai arrumar outro marido! Essa comida parece lavagem de porco! Você é burra. Não adianta estudar. Você não faz nada direito. Se você for estudar, quem é que vai cuidar da casa?”.

O exercício que fizemos em sala de aula foi capaz de fazer-nos complexificar ainda mais a cena, de modo que a opressão fosse discutida para além do fato da oprimida poder ou não voltar a estudar. Mas sim por quais motivos as mulheres daquela comunidade precisariam da permissão dos seus maridos para estudar, trabalhar, etc.? Em que momento da vida surge esse movimento com as mulheres e com os homens? E, já que ele existe, como é que, agora, com consciência disso, a gente pode reconstruir a realidade?

A cena nos mostrou potência para trabalhar o processo de socialização feminina e masculina naquela cidade. Era preciso discutir como que a gente ensina as crianças o que é ser homem e o que é ser mulher. Muito além de resolver a história de Maria, era preciso discutir a nossa vida em sociedade.

A história de Maria foi trabalhada no processo da oficina, no Teatro-fórum, a gente trabalha as nossas próprias histórias. E, assim, no último dia, após chegar da delegacia com os seus filhos e se preparar para apresentar o modelo de cena que criamos na oficina, Maria nos deixou uma carta que levamos até hoje.

 

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[1] Este texto é a transcrição da fala do ator Wagner Montenegro durante o círculo de palestras promovido pelo SESC Santa Rita no dia 30 de agosto de 2017 e realizado em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco no projeto Usina Teatral, que teve como tema “Teatro e Memória”.

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